Origem das Línguas

Por 13 de abril de 2019Auding Idiomas

Desde Torre de Babel até a Lei de Grimm, a história da origem das línguas é muito extensa e cheia de mistérios. Linguistas vêm estudando este tema por muitos anos a fim de solidificar uma língua mãe, progenitora de todas as demais faladas ao longo dos anos.

O consenso contemporâneo entre os especialistas é de que a língua ancestral é o proto-indoeuropeu, pertencente à família indo-européia de idiomas, que inclui o português, o inglês e muitas outras línguas europeias, bem como o persa, o hindu e outras.

Porém, há um conflito de ideias no que diz respeito a base dessa língua e de como esta se disseminou.

TEORIA DA ANATÓLIA X TEORIA DOS ESTEPES

Em 1956, a arqueóloga lituana Marija Gimbutas introduziu a Hipótese Kurgan, que defendia que o proto-indo europeu era falado por guerreiros nômades que saíram de sua terra natal, as estepes ao norte do Mar Negro (atualmente o leste da Ucrânia e o sul da Rússia), há 4000 anos, e conquistaram a Europa e a Ásia.

Os linguistas reagiram bem à essa teoria, pois Gimbutas apresentou provas arqueológicas. Segundo ela, a expansão territorial dos Kurgan ocorreu entre 4000-3500 a.C. Paralelo a isso, os linguistas acreditam que a primeira divisão em línguas separadas provavelmente deve ter ocorrido muito antes de 3000 a.C. Deste modo, os períodos se encaixam e a teoria passou a ser aceita pela comunidade científica.

Por outro lado, uma teoria opositora a esta foi sugerida pelo arqueólogo britânico, Colin Renfrew. Segundo ele, o proto-indoeuropeu era falado entre o sétimo e o sexto milênio a.C., na Anatólia (atual Turquia), e acompanhou o desenvolvimento da agricultura, e não uma expansão territorial guerrilheira.

Recentemente, esta teoria ganhou muita força entre os especialistas, devido ao estudo de um novo cientista.

Quentin Atkinson, pesquisador e PhD da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, acredita na teoria da Anatólia. Ele e sua equipe analisaram o vocabulário atual e o alcance geográfico de 103 línguas indo-europeias e com a ajuda de computadores, retraçaram seus passos até sua origem mais estatisticamente provável. Os resultados da pesquisa foram publicados na prestigiada revista Science e foi apoio decisivo a teoria da Anatólia.

Segundo o pesquisador neozelandês, tanto a cronologia quanto a base da árvore genealógica dos idiomas indo-europeus “se encaixa com uma expansão agrícola que teria começado entre oito mil e 9500 anos atrás”.

Os pesquisadores começaram com um grupo de palavras que são conhecidos por sua resistência à mudança, como pronomes, partes do corpo e relações familiares, e as comparou com a suposta palavra ancestral em proto indo-europeu. Os vocábulos que têm uma linha clara de descendência do mesmo ancestral são conhecidos como cognatos. Assim, “mother” (inglês), “mutter” (alemão), “mat” (russo), “madar” (persa), “matka” (polonês) e “mater” (latim) são todas cognatas do proto indo-europeu “mehter”.

Assim, por meio de um sistema binário, eles puderam identificar qual período cada língua começou a mudar. Por exemplo, eles estimaram que o romeno começou a divergir do latim depois de 270 d.C., devido as tropas romanas terem deixado a província de Dácia (que hoje é a Romênia). De acordo com essas datas, o computador pode estimar a cronologia de todo o resto. Os cálculos indicaram a Anatólia como origem mais plausível do indo-europeu e os pesquisadores concluíram, então, que a disseminação da língua foi feita pela agricultura.

Junto a isso, Atkinson também argumenta que palavras relativas a “roda” e “eixo de rodas” estão presentes no vocabulário proto-indoeuropeu. Os linguistas opositores discordam, dizendo que os primeiros indícios de transportes com rodas surgiram por meio de 3500 a.C., não indo de encontro com o período de tempo apresentado pela teoria da Anatólia.

“Eu vejo a prova dos veículos com rodas como um trunfo que acaba com qualquer árvore genealógica”, disse David Anthony, arqueólogo do Hartwick College que estuda origens indo-europeias.

Os linguistas veem outras provas, como as palavras em indo-europeu para cavalo e abelha, e palavras emprestadas ao proto-urálico, que originou o finlandês e o húngaro. O melhor local para se encontrar cavalos selvagens, abelhas e gente que falava o proto-urálico seria na região das estepes acima do Mar Negro.

A “árvore genealógica” de Atkinson foi criticada por Anthony, que achou um projeto implausível e que o trabalho com cognatos deve ser apenas uma parte da pesquisa, e que as mudanças de som e de gramática também deveriam ser usadas.

Atkinson disse que ele passou sua simulação por uma árvore baseada em gramática construída por Don Ringe, um especialista em indo-europeu na Universidade da Pennsylvania, mas o resultado era, mais uma vez a Anatólia, e não as estepes.

Vale ressaltar que nem Atkinson e nem Anthony são linguistas. Apesar disso, ambos os estudos são de suma importância para o estudo das línguas.

De qualquer maneira, a comunidade científica segue dividida no que diz respeito a origem geográfica do proto-indoeuropeu.

TORRE DE BABEL

O famoso conto bíblico fala sobre a suposta torre construída pelos homens com a finalidade de alcançar os Céus. Entretanto, Deus teria ficado furioso com tamanha soberba humana e teria causado uma grande ventania para derrubar a torre e espalhado as pessoas sobre a Terra com idiomas diferentes, para confundi-las. Por esse motivo, o mito é entendido hoje como uma tentativa dos antepassados de se explicar a existência de tantas línguas no mundo.

Contos místicos a parte, há estudos reais sobre a veracidade da torre. O mito provavelmente é inspirado na torre do templo de Marduk, que em hebraico é Babel e significa “porta de Deus”. No sul da Mesopotâmia há realmente restos de torres que fazem alusão à Torre de Babel da bíblia.

Porém, segundo a ciência, Babel era a capital do Império Babilônico, uma cidade-estado extremamente rica e poderosa. Era um centro político, militar, cultural e econômico do mundo antigo. Tal como cidades cosmopolitas nos dias atuais – Nova York, Paris, Londres – ela recebia um grande número de imigrantes de diversas nacionalidades, explicando então o grande fluxo de idiomas diferentes.

LEI DE GRIMM

Os Irmãos Grimm são reconhecidos mundialmente por suas fábulas infantis, tais como A Branca de Neve e os Sete Anões. Entretanto, a dupla também foi muito atuante no campo acadêmico linguístico. A Lei de Grimm é uma tendência fonética nas línguas germânicas, descoberta em 1822 e descrita em detalhes pelos irmãos. A lei explica as variações que sofreram várias consoantes indo-europeias, por uma mutação acontecida no período pré-histórico da evolução das línguas germânicas.

Assim, por exemplo, a consoante d se converteu em t (latim duo, inglês two), k ou c passou a h (latim collis, inglês hill), entre outros.

Além de sua relevância para a linguística germânica, a Lei de Grimm foi de extrema importância para o estudo da origem das línguas, pois abriu um caminho de investigação e justificou o princípio da regularidade das leis fonéticas.

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